Eletroconvulsoterapia é terapia sim!

A Polêmica sobre a nota técnica do Ministério da Saúde em Saúde Mental
Marcelo Feijó de Mello

Interessante o barulho que a nota técnica causou nas mídias sociais, com certeza muitos não leram a mesma, antes de repetir que ela significa o atraso e retorno a práticas manicomiais. O uso do jargão antimanicomial por ativistas pseudo-progressistas da saúde mental, coloca qualquer mudança às propostas da reforma da saúde mental da década de 80 (com base em pensamentos da contracultura das décadas de 60-70), como atrasos. Neste tempo a psiquiatria foi colocada como opressora e aliada a regimes totalitários, que usavam o diagnóstico psiquiátrico como uma forma de isolar aqueles que eram contra o sistema. Os manicômios eram locais onde estes eram ali jogados e esquecidos (e eram mesmo, mas não podiamos considerar que eram locais de tratamento ou saúde). Com a reforma da saúde mental a psiquiatria e os psiquiatras foram colocados no ostracismo na saúde mental.

Quarenta anos passados, muito se mudou, logo a reforma precisa avançar! Os anos noventa foram considerados, a década do cérebro, entre 2001-2010 a década da mente. O avanço na psiquiatria foi considerável com as pesquisas epidemiológicas, clínicas e das neurociências que abrem os conhecimentos sobre o cérebro até então desconhecido. A mente é definitivamente reconhecida como um produto do cérebro em direta conexão com o ambiente e a cultura. A psiquiatria, dentro da medicina, testa seus diagnósticos e tratamentos, passando a se basear na ciência, e autorizar tratamentos que tenham evidências científicas de que funcionam e são seguros. A medicina sai do personalismo de médicos que tratavam de acordo com sua experiência pessoal ou com suas ideologias. A Psiquiatria Brasileira acadêmica está entre as mais consideradas no mundo, somos o 6º país a ter mais citações de nossos artigos científicos. A Psiquiatria foi a primeira especialidade médica a trabalhar com outras especialidades introduzindo a equipe multidisciplinar.

A crítica sobre a eletroconvulsoterapia também é precária, sinto tristeza em ler opiniões equivocadas sobre o tema, sugerindo que tal tratamento seja associado a métodos de tortura. Artigos publicados em revistas como Lancet (2ª revista de maior impacto no mundo) e artigos japoneses, franceses, americanos, ou dentro das diretrizes de tratamento canadense, do Reino Unido ou dos EUA colocam: A ELETROCONVULSOTERAPIA É SIGNIFICATIVAMENTE MAIS EFETIVA QUE A FARMACOTERAPIA. É um tratamento extremamente seguro, com mortalidade de 2,1 para cada 100.000 tratamentos (podemos comparar com a taxa de 3,4 mortes/100.000 anestesias gerais).

Qual a diferença entre a cardioversão e a ECT? Ambas salvam vidas, em nenhuma delas o paciente sente o choque, por estarem sedados. A diferença está porque ainda não existem ativistas anticardiologia, que queiram substituir os cardiologistas nos empregos públicos, e na realização de seus procedimentos. Ao final ativismo é necessário para provocar mudanças, mas quando os ativistas barram novas mudanças passam a ser reacionários.

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